O ataque contra a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, com a circulação de cartazes apócrifos associando sua imagem a Elize Matsunaga e Flordelis, ultrapassa a eleição pernambucana. O episódio serve também como alerta para o ambiente que começa a tomar conta das eleições em outros estados — e o Rio Grande do Norte não está fora disso.
Além do conteúdo do material, chama atenção o momento em que ele aparece.
Raquel iniciou sua participação no horário eleitoral recorrendo a um aspecto extremamente pessoal de sua trajetória. “Virei governadora de Pernambuco no momento mais difícil da minha vida”, afirmou, numa referência ao período em que perdeu o marido, Fernando Lucena, em 2022, às vésperas do segundo turno da eleição estadual.
Poucos dias depois, surgiram os cartazes ofensivos.
Não há, até o momento, elementos que permitam atribuir a autoria do material a qualquer adversário ou campanha. João Campos, principal adversário de Raquel, repudiou publicamente o episódio.
Mas existe uma questão que vai além da identificação de quem produziu ou espalhou os cartazes: qual será o efeito político desse tipo de ataque?
Raquel reagiu levando o episódio para o campo pessoal. Falou da família, demonstrou indignação e acionou as autoridades. Com isso, um material aparentemente destinado a desgastá-la também pode provocar o efeito contrário: solidariedade.
É justamente aí que ataques dessa natureza se tornam imprevisíveis.
Uma agressão pode prejudicar quem é alvo, mas também pode humanizá-lo, mobilizar seus apoiadores e provocar rejeição contra quem o eleitor enxergar como responsável pelo excesso.
E esse debate precisa chegar também ao Rio Grande do Norte.
Guardadas todas as proporções, estamos vendo por aqui uma campanha em que candidatos, apoiadores e militantes começam a ultrapassar o confronto político e entrar perigosamente no terreno da ridicularização pessoal.
Apelidos, montagens, memes ofensivos, ataques à aparência, aos gestos e às características pessoais dos adversários começam a ocupar um espaço que deveria pertencer às propostas, aos resultados administrativos e ao debate sobre o futuro do Estado.
Isso é ruim para a eleição e pior ainda para a democracia.
É absolutamente legítimo questionar um candidato sobre sua gestão, suas propostas, suas alianças, suas contradições e fatos de interesse público. Política precisa de confronto, fiscalização e cobrança.
Mas existe uma enorme diferença entre confronto político e humilhação pessoal.
O problema se agrava quando apoiadores passam a acreditar que defender seu candidato exige necessariamente ridicularizar o adversário. Não exige.
É possível fazer uma campanha dura, apontar erros, desmontar argumentos e apresentar fatos sem desumanizar quem está do outro lado.
Como jornalista e comunicador, também acredito que existe responsabilidade de quem produz e distribui conteúdo político. Esse tipo de material não encontrará espaço nas minhas redes.
Posso concordar ou discordar de Álvaro Dias, Allyson Bezerra, Cadu Xavier ou de qualquer outro candidato. Posso cobrar, criticar, analisar e publicar fatos que tenham relevância jornalística.
Isso faz parte do meu trabalho.
Ridicularizar pessoas, não.
O Rio Grande do Norte tem problemas sérios demais para que uma eleição para governador seja reduzida a uma guerra de memes, apelidos e ataques pessoais.
E o episódio de Pernambuco mostra que existe ainda outro componente: nem sempre quem ataca consegue o resultado pretendido. O ataque pode produzir desgaste, mas também pode gerar solidariedade. Pode aumentar a rejeição do alvo ou se voltar contra quem atacou.
Por isso, tanto em Pernambuco quanto no Rio Grande do Norte, talvez a pergunta não seja apenas quem ganha uma batalha nas redes sociais.
É preciso perguntar o que a política perde quando o debate chega a esse nível.
Que a campanha seja dura. Que tenha contraditório. Que tenha cobrança. Que tenha investigação e confronto de ideias.
Mas que tenha limite.
Porque quando a política perde o respeito pelo adversário e transforma divergência em agressão pessoal, não perde apenas quem foi atacado.
Perde o debate, perde o eleitor e perde a democracia.