
Em Brasília, não é o tamanho da cadeira que mede o poder — é o tamanho da rede de influência. E, na semana que passou, ficou claro que a presidência da Câmara pode trocar de dono, mas o controle do tabuleiro continua nas mesmas mãos.
Na teoria, a presidência da Câmara dos Deputados mudou de mãos. Na prática, o controle não saiu de lugar nenhum. A semana passada foi o teste definitivo para o recém-eleito Hugo Motta, 444 votos, mais jovem presidente desde a redemocratização. Título bonito, faixa no peito, microfone à frente. Mas Brasília não vive de símbolos. Vive de comando.
O “batismo de fogo” veio rápido: oposição ocupando a Mesa, sessão paralisada por horas, clima de motim, seguranças em alerta, líderes correndo, notas oficiais tentando botar panos quentes. Para quem estava do lado de fora, confusão. Para quem estava nos corredores, um enredo de poder sendo encenado ao vivo.
A origem do impasse foi a pressão da oposição para pautar a chamada “anistia” a manifestantes do 8 de Janeiro, um tema inflamável e carregado de interesse político. O governo e parte do centrão resistiam, temendo abrir espaço para derrotas simbólicas e jurídicas. O plenário travou, e Hugo Motta se viu encurralado entre ceder e perder autoridade ou resistir e prolongar a paralisia.
No meio do caos, Sóstenes Cavalcante pega o celular. O número? Arthur Lira. Um telefonema. Dez minutos depois, o impasse que resistia havia sete reuniões estava resolvido. Esse é o tipo de matemática que Brasília entende.
Lira não tem mais a cadeira, mas continua com a chave. E em certos gabinetes, a chave abre portas que a credencial de presidente não garante. A negociação para destravar a sessão passou pelas mãos dele — e terminou exatamente onde sempre terminou nos últimos anos: com a sua palavra final.
O que não saiu nos discursos foi o custo da pacificação: promessas de relatorias estratégicas, espaços em comissões e a sinalização de que temas caros à oposição poderiam avançar nas próximas semanas. Esse tipo de acerto raramente aparece no Diário Oficial, mas é ele que mantém a engrenagem política girando.
Enquanto Hugo discursava sobre “excessos” e prometia “respeito à Mesa”, Lira estava no telefone, alinhando peças e distribuindo promessas. Porque em Brasília, convite não é convite. É orientação. E quem cumpre, recebe.
O saldo é simples: Lira saiu maior sem precisar aparecer na foto; Hugo saiu menor mesmo ocupando o centro do plenário; e Sóstenes foi o mensageiro perfeito para a narrativa que interessava.
No fim, a frase que correu nos corredores não deixava dúvidas: “foi ele quem resolveu”. E se alguém ainda tinha dúvida de quem manda, a semana tratou de responder.
Brasília tem um manual não escrito: cargo é vitrine, poder é bastidor. E a tal “volta” de Lira? Vamos combinar: não existe volta para quem nunca foi embora.