
A Prefeitura de Caicó registrou, em dezembro de 2025, uma ata de preços no valor de R$ 24 mil com a Dismed Distribuidora de Medicamentos, empresa que posteriormente foi alvo da Operação Mederi, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro de 2026 para investigar suspeitas de irregularidades envolvendo recursos da saúde.
A Ata de Registro de Preços nº 217/2025, vinculada ao Pregão Eletrônico nº 073/2025, prevê o fornecimento de dois itens de succinato de metoprolol para a farmácia básica do município. O documento foi assinado em 18 de dezembro de 2025 pelo sócio da empresa, Oseas Monthalggan Fernandes Costa, e tinha validade de 12 meses.
A contratação ocorreu cerca de cinco semanas antes da deflagração da Operação Mederi. Segundo informações obtidas nos autos, o Fundo Municipal de Saúde de Caicó já aparecia, desde março de 2024, em um relatório de inteligência financeira relacionado às comunicações que deram origem à investigação. A presença no relatório, porém, não significa acusação ou comprovação de irregularidade.
Outro elemento citado na investigação é uma mensagem de voz analisada pela Polícia Federal na qual um interlocutor relata uma passagem por Caicó e menciona uma conversa com um secretário de saúde e uma disputa em processo de licitação. O trecho, contudo, não menciona pagamento de propina, fraude ou combinação de resultado, e a identidade do autor da fala não foi confirmada nos autos.
Em outro registro, a PF identificou um Pix de R$ 1,7 mil enviado por um dos sócios da Dismed a uma pessoa que, segundo a investigação, já havia ocupado o cargo de tesoureira da Secretaria Municipal de Tributação e Finanças de Caicó. O documento não afirma que ela ocupava o cargo na época do pagamento nem estabelece relação entre a transferência e contratos do município.
Após a Operação Mederi, a defesa da Dismed informou à Justiça Federal que a empresa interromperia relações comerciais com cinco municípios: Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel e José da Penha. Caicó não estava entre as cidades citadas na medida.
A defesa também afirmou que a empresa tinha uma carteira de clientes formada por 81 fundos municipais de saúde entre 2023 e 2025, incluindo Caicó. Segundo os advogados, em 29 de janeiro de 2026, dois dias após a operação, a administração da Dismed passou a ser exercida por uma procuradora, com o afastamento do sócio investigado da gestão administrativa e financeira.
Apesar das citações nos documentos relacionados à investigação, a Dismed não aparece, segundo consulta mencionada na reportagem, em cadastros de empresas impedidas ou sancionadas pelo TCU, CNJ e CGU. A empresa continua ativa e não havia, até a data da consulta, impedimento formal para contratar com o poder público.
A ata firmada com Caicó tem validade até dezembro de 2026, caso não tenha sido cancelada ou suspensa anteriormente. Permanecem questões sobre eventual execução do contrato, pagamentos realizados pelo município em 2026 e sobre o alcance das medidas cautelares determinadas no âmbito da Operação Mederi.
Os fatos citados integram uma investigação em andamento e não representam, por si só, comprovação de irregularidades ou de participação do município no esquema investigado. Os envolvidos são considerados inocentes até eventual decisão judicial definitiva.